2º Encontro para pais e educadores do Colégio Rio Branco trouxe a discussão da necessidade de limites às crianças, ação que não deve excluir carinho e afeto
A noite do último dia 1º de junho foi de muita reflexão para pais e professores do Colégio Rio Branco que assistiram a palestra do pediatra José Martins Filho. Com sua experiência que chega a quase quatro décadas no cuidado das crianças, o ex-reitor da Unicamp conseguiu sintetizar muitas dúvidas relacionadas à necessidade de imposição de limites aos pequenos, sem que isso interfira no carinho e afeto inerentes aos pais. O papel da escola na educação também foi amplamente debatido e Martins ainda fez uma brincadeira: “Quando um pediatra envelhece, ele vai se dando conta do papel da escola”.
A atenta plateia do 2º Encontro para Pais e Educadores foi composta de, aproximadamente, 200 pessoas e o médico foi enfático ao afirmar que, atualmente, os pais têm medo de dizer “não” aos filhos. “Nós herdamos a história do ‘é proibido proibir’; crescemos achando que é ruim dizer não. É preciso reavaliar isso”, apontou. Disse também a importância do tempo dedicado às crianças, o afeto meio esquecido e da paciência necessária na educação. “Criança normal dá trabalho e os que desejam ter filhos não devem ter ilusões quanto a isso”, afirmou. Segundo ele, carinho e amor são fundamentais até para o crescimento físico da criança. “Além de comida, criança precisa de colo para crescer saudável”, disparou.
Assim, na sociedade atual em que pais e mães trabalham, o tempo passou a ser um determinante na construção dos relacionamentos. Então, o pediatra também abordou o papel das babás, alimentação saudável, rituais do sono, birras, papel da TV e internet, respeito aos mais velhos, limites e castigos, mesada e das famílias reorganizadas, de pais separados. Sintetizou seus pensamentos com uma frase do célebre José Saramago: “O homem que sou devo à criança que fui”. Em parte emocionada da palestra, Martins apresentou o texto pertencente a uma carta, atribuída a Abraham Lincoln, que teria sido escrita em 1830 e enviada ao professor do seu filho.
“Caro professor, ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, por cada vilão há um herói, que por cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que por cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros do céu, as flores do campo, os montes e os vales.
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos. Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram. Ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando esta triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram. Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.
Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.
Eu sei que estou a pedir muito, mas veja que pode fazer, caro professor.”
Abraham Lincoln, 1830
Carta atribuída a Abraham Lincoln, enviada ao professor do seu filho.