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Professora deixa colégio depois de ensinar duas gerações

Rogério Verzignasse

Verena, do giz à lousa digital

Professora deixa colégio depois de ensinar duas gerações

 

 

Baú de Histórias

Rogério Verzignasse
rogerio@rac.com.br

A última aula de Verena foi ministrada no final de novembro aos alunos do 6º ano D. Ela conta em detalhes: os coordenadores da escola entraram na sala e a levaram para uma área anexa ao pátio, onde os alunos a esperavam para a homenagem. Salgadinhos, sucos, sorrisos e depoimentos agradecidos. Foi difícil segurar as lágrimas. Mas chegou a hora de parar. A professora Verena Steffen Masek trabalhou nada menos que 36 anos no Colégio Rio Branco. Ela é remanescente da época em que a escola funcionava no Centro, ali ao lado do atual Terminal Central. Lecionou para os filhos dos seus primeiros alunos. Contratada na época do jaleco sujo de giz, ela acompanhou a chegada da lousa digital.

A mestra fez o primário ali mesmo no Rio Branco. O ginásio foi no Culto à Ciência e o normal, no Ateneu Paulista. Depois, fez geografia na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). No primeiro ano da faculdade, em 1966, ela começou a carreira como professora. Lecionou na Violeta Dória Lins, escola municipal da Vila Rica. E guarda até hoje, na memória, as cenas chocantes de crianças paupérrimas, tomadas por verminoses. “Os anos lecionando na periferia me apresentaram o mundo. Eu senti que tinha uma missão especial: educar aqueles pequenos, lhes oferecer esperança de uma vida melhor”, fala.

Em 1971 e 1972, ela ensinou adultos a ler e escrever, com classes do Mobral no Parque Industrial. E, em 1973, Verena foi contratada pelo Rio Branco. Ela, além de ter feito o primário por ali, era filha e neta de antigos alunos do estabelecimento. Começou trabalhando como professora substituta e acabou efetivada para a cadeira de estudos sociais. Moradora da Rua Álvares Machado, a poucas quadras da escola, ia a pé até o trabalho. Não havia perigo algum em caminhar pelo Centro.

Mas, pela janela, ela viu como a paisagem do Centro se transformava. Os móveis brilhantes da manhã chegavam ao fim do dia cobertos por uma camada de fuligem. O jardim com lagos, sob o viaduto, desapareceu. O buzinaço era insuportável. Os sobrados coloniais do quadrilátero, com flores na fachada, aos poucos iam se transformando em cortiços e ruínas. “Me lembro de acomodar uma classe inteira de alunos em um corredor da escola. Faltavam salas. O Rio Branco precisava de um espaço melhor”, diz. “Em 75, fugimos do Centro.”

A professora lembra que a nova sede do colégio começou com quatro salas modestas, construídas no meio da antiga Chácara Santa Isabel, em Barão Geraldo. Os mantenedores da escola, que eram os pais dos próprios alunos, viram que era importante projetar uma nova escola, e modernizá-la. E a ousadia teve um preço alto. No primeiro ano no distrito, fala, o número de alunos despencou. Eram quase 700 no Centro. Em Barão, não chegavam a 160. “Chegar à chácara era uma autêntica viagem, em pista simples e sinuosa, perigosíssima”, lembra.

Hoje, aos 66 anos de idade, e mesmo sem lecionar, ela passa o dia por aqueles corredores. Ela considera muito importante o contato com a garotada. “A gente se sente viva, atualizada”, fala. E olha que isso não é apenas discurso. Quando ela volta para casa, a mestra se diverte em sites de relacionamento, como o Orkut, um grupo fechado de 1,3 mil amigos. “Eu troco mensagens até com ex-alunos que moram no Exterior.”

E a informática, ela fala, mudou para muito melhor a vida dos estudantes. Hoje, ela opina, as facilidades da internet constroem uma geração de jovens bem informados, articulados, conscientes, responsáveis. “Hoje, para o aluno, é muito mais simples entender o mundo, e saber a importância da participação de cada indivíduo na sociedade”, afirma.

Mas tanta tecnologia não a afasta da tradição. Entre uma prosa e outra pelo pátio e corredores, ela adora passar pela biblioteca e mergulhar nas fotos antigas, de gente que, como ela, teve a vida ligada ao colégio. Numa só foto, da primeira metade do século passado, aparecem, ao redor do professor Carlos Zink, alunos como Arno Hellwig Penteado, Carlos Ortolan, Dagoberto Lemos, Carlos Pilz, Gilberto de Biasi e Astrid Wiegandt. Também há a foto do inesquecível Coral Harmonia, formado pelos pais dos alunos, que cantavam pela cidade e arrecadavam recursos para a construção da nova escola. “Eu sinto uma emoção enorme de ver como os próprios cidadãos, sem qualquer ajuda do governo, se organizaram e construíram uma colégio de excelência”, diz.

Após o encerramento formal do ano letivo, no dia 17, Verena quer viajar com o marido, o empreiteiro de obras aposentado Arnaldo Masek. Ela quer adaptar a velha Kombi da garagem como trailer e apreciar, ao vivo, paisagens que ela aprendeu a amar nos livros. E Verena ainda tem um sonho a realizar: entrar em contato com seus primeiros alunos, os pequenos da Vila Rica, por exemplo, ou gente do embrionário Rio Branco do distrito. “Cada reencontro é um presente que eu ganho”, diz.

SAIBA MAIS

As pessoas interessadas em conversar com a professora Verena Steffen Masek podem escrever para o e-mail verenamasek@uol.com.br.

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A seção Baú de Histórias resgata, sempre aos domingos, episódios que foram motivos de reportagem no passado. Leitores que quiserem sugerir temas para a coluna podem escrever para a redação do Correio Popular ou enviar e-mail para rogerio@rac.com.br.
Jornal Correio Popular, Cidades, 13/12/2009


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